Realmente preciso alimentar os corais do meu Aquário? PARTE I

Entenda a importância e os benefícios que a alimentação de corais pode trazer para o seu reef.

Wesley Freitas

Oi pessoal, tudo certo com vocês? Nos próximos artigos do blog vamos falar um pouquinho sobre os corais, esses animais que encantam todos os apaixonados pela vida marinha. Inicialmente já podemos destacar algumas peculiaridades muito importantes desses organismos. Os corais são animais aquáticos que se diferenciam de outros organismos por conseguir obter parte da sua energia da fotossíntese, através da relação de simbiose com o dinoflagelado Symbiodinium sp., mais conhecido entre os aquaristas como zooxantela.

Devido a essa particularidade, por muito tempo se criou a convicção de que os corais dependiam apenas da luz para sobreviver. Por isso, ainda hoje muitos aquaristas vão argumentar que apenas uma boa iluminação é suficiente para manter um coral saudável. Claro que este é um fator de fundamental importância, porém essa ideia de que os corais dependem exclusivamente da luz é errada, pois somente a nutrição fornecida pela zooxantela não é suficiente para atende toda a demanda de crescimento e desenvolvimento da grande maioria dos corais. Isso mesmo, os cientistas já descobriram que além da fotossíntese, grande parte de todos os corais conhecidos também são dependentes da obtenção de nutrientes através da alimentação e da absorção de nutrientes dissolvidos na água. Corais mantidos em aquário ficaram por muito tempo subalimentados, mas aos poucos isso tem mudado e muitos aquaristas já perceberam os benefícios da alimentação. É isso que vamos discutir um pouco mais nesse artigo. Bora lá!

O nosso desejo enquanto aquaristas apaixonados pelo hobby não é de que os animais apenas consigam sobrevier no nosso reef e sim de que eles estejam saudáveis e possam crescer e se multiplicar, certo? Perguntamos então, quais as reais necessidades dos corais? Se você respondeu boa qualidade da água, iluminação adequada, boa circulação e ALIMENTAÇÃO, você está no caminho certo.


Obviamente que cada grupo de coral vai ter sua particularidade, iluminação mais ou menos intensa, maior ou menor circulação de água, maior ou menor tolerância à níveis nutrientes dissolvidos, etc. Para a alimentação não é diferente, alguns corais têm maior necessidade de obter nutrientes através da alimentação e outros são um pouco menos dependentes. Mas praticamente todos os corais que mantemos nos nossos aquários precisam dessa fonte de alimento externo. Isso acaba explicando parte dos casos em que todos os parâmetros do aquário estão tecnicamente adequados, boa circulação, uma boa iluminação, enfim, depois de investir em um sistema de qualidade, com equipamentos ótimos, alguns corais ainda teimam em não ir para frente, não atingindo o crescimento esperado. E isso muitas vezes acaba nos deixando frustrados.


A grande maioria dos corais que conhecemos são organismos chamados mixotróficos, ou seja, eles conseguem obter energia de diferentes fontes. Resumindo, eles podem obter nutrientes da fotossíntese (autotróficos) e também da alimentação (heterotrófcos). O que acontece é que cada uma dessas fontes irá fornecer diferentes tipos de nutrientes, que acabam se complementando. A relação de simbiose dos corais com as algas zooxantelas já bem conhecida e bastante estudada. Essas algas conseguem basicamente fornecer grandes quantidades de carbono orgânico (como glicose, glicerol), principal fonte de energia dos corais, entre outros nutrientes (alguns aminoácidos e minerais), que são utilizados em diversos processos fisiológicos vitais. Essa relação com a zooxantela é fantástica e essencial para sobrevivência dos corais, mas ela ainda é insuficiente para atender a demanda do coral para alguns nutrientes, como por exemplo o nitrogênio.


O nitrogênio é um componente muito importante para a vida pois ele é necessário na síntese de proteínas, as quais atuam na grande maioria dos processos metabólicos, participando inclusive do processo de crescimento dos tecidos vivos e reprodução. Como regra geral cerca de 50% do peso seco dos tecidos dos corais é composto por proteínas. Diferente dos vegetais, como as algas, os corais não conseguem absorver grandes quantidades de nitrogênio dissolvido na água. Eles precisam adquirir esse nitrogênio através do plâncton (seja bacterioplâncton, zooplâncton ou fitoplâncton; discutiremos mais afundo esses grupos em um próximo artigo). Existe um estudo bastante interessante realizado com o coral Acropora palmata (Bythell, 1990) em que o autor demostrou que para esta espécie em particular cerca de 70% do nitrogênio era proveniente da alimentação, enquanto 91% do carbono vinha da fotossíntese. Ou seja, os dois processos se complementam para atender a demanda nutricional do coral.



Figura 1: Composição do tecido dos corais. Vermelho: Proteínas e Aminoácidos. Verde: Ácidos graxos e lipídeos. Amarelo: Carboidratos, cinzas e outros nutrientes. (fonte: https://www.advancedaquarist.com/2014/11/aafeature)

Um ponto ao qual devemos nos atentar é que apesar de grande parte da nutrição vir da fotossíntese, se um nutriente estiver faltando ou limitado, mesmo que em pequena quantidade, todo o processo de desenvolvimento do coral acaba sendo afetado. Fazendo uma analogia a grosso modo, vamos imaginar um carro esportivo, com um motor superpotente, uma aerodinâmica extraordinária, todo um conjunto projetado para atingir altas velocidades. Porém nesse carro falta o pedal do acelerador. Não teria muita utilidade todo esse conjunto, se o carro não pode sair do lugar porque falta uma peça, certo? Por isso muitos aquaristas ficam frustrados por investirem em luminárias top de linha, em circulação, filtragem etc. etc. e mesmo assim ainda observar um resultado de crescimento dos corais que é decepcionante. Isso pode acontecer justamente por uma deficiência nutricional, ocasionada pela falta de alimentação. Claro que esta não é a resposta para todos os casos, mas responde uma parcela deles. O aquário é como uma máquina, tudo funciona em conjunto e a falta de uma engrenagem pode comprometer todo o sistema.


Você também já reparou que os corais são repletos de pólipos e possuem boca? Isso porque a grande maioria dos corais possuem diversas estruturas especializadas na captura de alimento. Então vamos pensar, por que uma classe inteira de organismos teria evoluído ao longo de milhares de anos e desenvolvido estruturas para captura de alimento se isso não tivesse nenhuma influência na sua sobrevivência. Não faria muito sentido, né? Acho que a natureza não faria isso apenas por capricho. Já está bem documentado por artigos científicos que a alimentação dos corais pode promover muitos benefícios, fornecendo nutrientes que são de fundamental importância para diversas funções biológicas. Em muitos casos mais da metade da energia obtida pela fotossíntese acaba sendo utilizada para manutenção do metabolismo basal (funções vitais básicas para o organismo se manter vivo). Outro processo que também é muito beneficiado pela energia fotossintética das zooxantelas é a calcificação. Mas outras necessidades dos corais, como recuperação de injurias (cicatrização), crescimento e reprodução são extremamente dependentes das proteínas e ácidos graxos essenciais adquiridos através da alimentação (Risk et al., 1994; Titlyanov et al., 2000; Fitt and Cook, 2001; Titlyanov et al., 2001).



Figura 2: Relação dos principais nutrientes fornecidos pela fotossíntese e pela alimentação.

Alguns estudos científicos já demonstraram o crescimento de 2 a 8 vezes maior e uma taxa de calcificação de até 30% superior para corais alimentados em comparação aos corais que não receberam alimento. (Ferrier-Pagès ET AL., 2003; Fanny et al., 2002). No estudo de Fanny et al. (2002), os autores demonstram que em algumas espécies de corais SPS a taxa de calcificação pode ser ainda maior em corais alimentados com zooplâncton, chegando a ser de 50 a 75% superior, independente dos níveis de iluminação testados. É ainda mais interessante ver esses resultados, porque se criou um certo mito de que corais SPS dependem somente da luz, e não necessitam de alimentação como os corais LPS. Essa teoria está errada e já existem estudos que demostraram que alguns corais SPS chegam a se alimentar 30x mais do que alguns corais LPS, sendo que alguns corais SPS tem a maior área de captura de alimento por área corporal dentre todos os animais aquáticos!! (Sorokin, 1995). A grande diferença desses corais é que eles possuem pólipos e bocas muito menores, necessitando assim de presas muito pequenas, o que dificulta a visualização por parte dos aquaristas e provavelmente por isso foi criado esse mito de que corais SPS não se alimentam.


Claro que a iluminação, circulação, reposição de nutrientes e os parâmentros de qualidade da água são fundamentais, mas a partir de agora devemos ter em mente que a alimentação também é um pilar de fundamental importância para a saúde dos nossos reefs e não podemos continuar a considera-la apenas como algo superficial. No próximo artigo iremos detalhar um pouco melhor as formas e os tipos de alimentos que os corais necessitam. Quem tiver alguma dúvida ou sugestão para abordarmos dentro desse tema é só deixar nos comentários abaixo. Até o próximo artigo pessoal. Abraços!



Galeria: Corais se alimentando de zooplâncton


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